Artigos Fique por dentro das últimas novidades


  • 14/11/2025 08:30
  • Jorge Avancini

Quando a falta de integração ultrapassa os limites

A recente declaração machista do técnico de futebol Ramón Díaz, em que declara que “futebol não é coisa de menina”, expôs mais do que um erro individual: revelou a ausência de um processo de adaptação e integração que deveria ser parte essencial da chegada de qualquer profissional ao seu novo local de trabalho e moradia. O futebol, assim como o ambiente corporativo, exige hoje mais do que resultados em campo, requer entendimento cultural, sensibilidade e atualização de valores e conhecimento dos hábitos e costumes da comunidade em que ele está sendo inserido como profissional.

Díaz é um treinador experiente, de uma geração formada em outro tempo, em que certas posturas eram toleradas ou sequer questionadas. Mas o mundo mudou. E quem não se adapta fica para trás. Seja em um vestiário, em uma empresa ou em qualquer ambiente que envolva a convivência humana.

O problema não é apenas dele. É também de gestão. Talvez tenha faltado preparo e orientação por parte do clube que o contratou e de seus agentes. Faltou entender que, quando se traz um profissional de outro país ou outra região do Brasil, é preciso mais do que um contrato e uma passagem de avião. É preciso oferecer contexto. Explicar costumes, hábitos e comportamentos, sensibilidades locais. Isso é rotina em grandes corporações multinacionais, que compreendem o impacto da mudança de ambiente sobre o desempenho e até sobre o equilíbrio emocional de seus executivos e seus familiares, quando de uma mudança.

A adaptação não se faz em um ou dois dias. Leva tempo. Envolve escuta, observação e humildade para aprender com o novo ambiente, com a linguagem, com os termos a serem usados no dia a dia. Quando esse processo é ignorado, os riscos são evidentes: declarações infelizes, choques culturais e, sobretudo, a perda de credibilidade, algo que, no futebol, se traduz rapidamente em desgaste com a torcida, com a imprensa e dentro do próprio elenco, e ainda se os resultados de campo não contribuem, soma tudo isso e temos um grande problema pela frente para ser resolvido.

Já vivi essa realidade. Trabalhei em diferentes cidades do Brasil, convivi com culturas distintas e vi de perto como a falta de apoio pode minar o rendimento e o clima de trabalho. Minha última experiência morando em Salvador/BA, em que residi por 3 anos, mostrou claramente a necessidade de apreender e conhecer a comunidade que estava sendo inserido. Por isso, quando observo casos como o de Ramón Díaz, vejo mais do que uma fala isolada: vejo um sistema que ainda falha em preparar pessoas para compreender o lugar em que estão e depois colher os resultados que esperamos destes profissionais.

Não é apenas competência técnica, é também empatia cultural e capacidade de adaptação. O mundo dos negócios e do esporte, com toda a sua diversidade, exige isso. E quem não entende rapidamente esse cenário, cedo ou tarde descobre que o campo mais difícil de dominar é o das relações humanas e isso pode ser a razão do êxito ou fracasso do profissional.

Fonte: SLER

URL original da matéria: https://sler.com.br/quando-a-falta-de-integracao-ultrapassa-os-limites/

Categorias