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  • 17/10/2025 08:30
  • Jorge Avancini

Nem sempre o mais barato é o melhor

 

 

Diariamente, ao ligar a televisão ou abrir um jornal, vejo notícias sobre obras paradas, contratos interrompidos por abandono das empreiteiras responsáveis e prejuízos milionários com o dinheiro público. Essa repetição de escândalos e fracassos me levou a refletir sobre o modelo de licitações adotado no país.

Há algo de profundamente equivocado no modo como o Brasil encara as licitações públicas. Desde a criação da Lei nº 8.666, de 1993, a lógica predominante é simples e devastadora: vence quem oferece o menor preço. É a consagração da aritmética sobre o bom senso.

O resultado dessa cultura está escancarado nas manchetes de todos os dias: obras paradas, empresas que somem, serviços precários e servidores terceirizados abandonados à própria sorte. As merendeiras do Rio Grande do Sul, por exemplo, vivem o drama de trabalhar sem receber porque a empresa “vencedora” da licitação, aquela que prometeu o menor custo, simplesmente não consegue honrar o contrato. É o barato que sai caro, e quem paga a conta é sempre o contribuinte.

O problema é estrutural. Quando o governo escolhe fornecedores apenas com base no menor preço, ignora fatores como histórico de execução, capacidade técnica, idoneidade e qualidade. O resultado é um sistema ineficiente e desastroso.

De acordo com levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2025, 50,7% das obras financiadas com recursos federais estão paradas no Brasil. Esse valor  equivale a 11.469 projetos inacabados de um total de 22.621 mapeados. Já foram investidos R$ 15,9 bilhões em obras atualmente paradas, o que dá uma ideia da dimensão dos recursos federais que serão desperdiçados caso esse problema não seja devidamente tratado.

O motivo mais comum é o mesmo: empresas que venceram licitações com valores irreais, sem condições financeiras ou técnicas de executar o contrato até o fim.

Ou seja: o sistema que deveria garantir eficiência e transparência se tornou um mecanismo de desperdício.  Claro que a corrupção não é exclusividade do setor público, mas é nele que ela encontra terreno fértil. A licitação, que deveria ser sinônimo de transparência, virou um ritual burocrático que confunde economia com irresponsabilidade. É a inversão de valores institucionalizada: vencer o processo virou mais importante do que entregar o resultado.

No Rio Grande do Sul, o governo anunciou R$ 51,7 milhões em investimentos para recuperar escolas atingidas pelas enchentes de 2024, mas grande parte das obras ainda não saiu do papel. De 1.558 obras previstas, apenas 10% foram concluídas, e 17 escolas seguem com reformas paradas por escassez de mão de obra e falhas de contrato.

Precisamos urgentemente repensar esse modelo. O caminho não é abolir as licitações, mas reformular seus critérios. Países desenvolvidos já adotam modelos híbridos, que ponderam qualidade, desempenho e preço, utilizando metodologias de “melhor valor” ou “contratação baseada em resultados”. O Brasil, porém, segue preso à cultura do menor custo, como se o orçamento público fosse um leilão de liquidação.

Enquanto o Estado tratar a gestão pública como um pregão de saldão, continuará refém de empresas que prometem o impossível e entregam o nada. Licitar não é apenas comprar barato, é garantir que o dinheiro público gere valor, continuidade e confiança.

Nem sempre o mais caro é o melhor. Mas o mais barato, quase sempre, é o pior caminho.

Fonte: SLER

URL original da matéria: https://sler.com.br/nem-sempre-o-mais-barato-e-o-melhor/

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