Em um cenário de intensas transformações econômicas, sociais e nas relações de trabalho, é cada vez mais evidente que a ética corporativa deixou de ser mera questão de discurso para tornar-se elemento estrutural da competitividade e da sustentabilidade das organizações.
No entanto, a realidade ainda mostra que muitas empresas brasileiras, grandes e pequenas, não dedicam a devida atenção à elaboração e ao controle de seus códigos de ética e conduta, documentos que, quando bem implementados, são fundamentais para promover uma cultura de trabalho sólida e sustentar os princípios de governança corporativa.
Dados do estudo Global Integrity Report, da EY, indicam que 80% das empresas brasileiras entrevistadas identificaram algum tipo de fraude ou irregularidade relevante nos últimos anos. O dado reforça que riscos relacionados à conduta seguem presentes no ambiente corporativo, mesmo em organizações que afirmam possuir estruturas formais de compliance.
É importante destacar que a existência de um código de ética, por si só, não garante sua efetividade. Levantamentos do Institute of Business Ethics apontam que a qualidade do código, a clareza das diretrizes, o treinamento contínuo e o exemplo da liderança são fatores determinantes para que o documento realmente influencie comportamentos. Quando tratado apenas como formalidade, muitas vezes criado para atender exigências regulatórias ou compor relatórios institucionais, o código perde sua função estratégica.
O código de ética é, antes de tudo, uma declaração de valores e expectativas. Ele orienta decisões, delimita responsabilidades e estabelece parâmetros claros para a convivência profissional. Mais do que prevenir desvios, ele contribui para a construção de uma cultura organizacional baseada em respeito, transparência e accountability.
No campo da governança corporativa, a ética é um dos seus pilares. Sem regras claras de conduta, mecanismos de controle e canais de denúncia eficazes, a governança se fragiliza. Investidores, clientes e a sociedade estão cada vez mais atentos à coerência entre discurso e prática. A reputação, ativo intangível de alto valor, pode ser rapidamente comprometida quando não há alinhamento entre valores declarados e comportamentos reais.
É preciso compreender que o código de ética não é um documento estático. Ele deve ser revisado periodicamente, adaptado às mudanças regulatórias e aos novos desafios do mercado, além de amplamente comunicado. Treinamentos regulares, monitoramento interno e compromisso inequívoco da alta administração são condições essenciais para que o instrumento cumpra seu papel.
Negligenciar a elaboração e o controle do código de conduta não é apenas uma falha administrativa; é um risco estratégico. Cabe aos administradores colocar a integridade no centro da gestão. Não por imposição normativa, mas por convicção de que organizações éticas constroem culturas mais fortes, relações mais duradouras e resultados mais sustentáveis.