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  • 31/10/2025 08:30
  • Jorge Avancini

A tecnologia que incomoda e afasta

Vivemos uma era de automação e promessa. Sistemas inteligentes, chatbots e plataformas digitais surgiram com o objetivo de trazer agilidade, reduzir custos e melhorar a experiência do cliente. Mas a prática tem mostrado que, quando a tecnologia é desenhada sem foco humano, o efeito é o oposto: distanciamento, frustração e perda de confiança.

Os números comprovam essa contradição. O levantamento CX Trends 2024, realizado pela Octa Desk em parceria com o Opinion Box, aponta que 58% dos clientes deixaram de comprar em uma empresa após uma experiência negativa. Entre as principais motivações estão entrega atrasada (28%) e qualidade do produto ou serviço (27%). Além disso, o estudo mostra que fatores como tempo de espera longo para resolução de questões (15%), falta de opções de contato com o suporte (15%) e ausência de comunicação sobre atualizações (11%) são decisivos na percepção de valor e na fidelização do consumidor.

Esses dados revelam algo fundamental: não há marketing capaz de compensar uma experiência ruim. E essa realidade se manifesta no cotidiano de qualquer consumidor. Casos simples, como o de um exame médico que depende de autorizações digitais ou o de um serviço doméstico, como manutenções de televisão ou de internet, que não pode ser agendado por falhas no sistema, mostram como a automação, quando mal aplicada, transforma o que deveria ser eficiência em obstáculo. Antes, uma ligação direta resolvia o problema em minutos; agora, o cliente se perde em menus automáticos, respostas genéricas e filas de espera digitais que parecem não ter fim.

Essa robotização excessiva não apenas frustra, mas cria uma sensação de indiferença. O cliente deixa de se sentir parte da relação e passa a enxergar a empresa como uma máquina impessoal. O resultado é um desgaste silencioso, que mina a confiança e enfraquece vínculos construídos ao longo de anos. Além disso, a empresa é lotada de críticas em sites de denúncias do consumidor, como o Reclame Aqui, por exemplo, prejudicando a reputação da marca. O paradoxo é evidente: enquanto as empresas investem milhões em marketing e campanhas de fidelização, negligenciam o ponto mais sensível da jornada — o atendimento direto. É nesse momento, quando o consumidor busca ajuda, que a marca revela seu verdadeiro compromisso com ele.

Isso não significa rejeitar a tecnologia. Pelo contrário: a inovação é essencial e inevitável. O que está em jogo é a forma como ela é utilizada. Automatizar processos repetitivos é inteligente; substituir totalmente o contato humano não é. O equilíbrio entre eficiência e empatia é o que diferencia uma empresa moderna de uma empresa mecanizada. Quando o consumidor precisa de uma solução e encontra apenas respostas automáticas, o custo da insatisfação é muito maior do que qualquer economia operacional.

As marcas precisam compreender que a fidelização não se compra com algoritmos, mas se conquista com atenção e respeito. O cliente que sente que foi ouvido, que teve seu problema resolvido com humanidade e transparência, volta a comprar. O que é ignorado por sistemas impessoais não apenas abandona a marca, ele a expõe. E, no ambiente digital de hoje, uma única experiência negativa pode se multiplicar em milhares de impressões ruins.

Empresas verdadeiramente inovadoras são aquelas que unem o melhor dos dois mundos: tecnologia que agiliza e pessoas que resolvem. A automação deve ser aliada da empatia, não seu substituto. É nesse ponto de equilíbrio que se constrói a verdadeira experiência do cliente, aquela que gera confiança, fortalece reputações e transforma eficiência em relacionamento.

No fim das contas, o desafio não é tecnológico, mas humano. A tecnologia deve aproximar, nunca afastar.

Fonte: SLER

URL original da matéria: https://sler.com.br/a-tecnologia-que-incomoda-e-afasta/

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